{"id":200,"date":"2023-10-29T18:50:11","date_gmt":"2023-10-29T18:50:11","guid":{"rendered":"http:\/\/matastro.pt\/astro\/?page_id=200"},"modified":"2023-10-29T18:50:11","modified_gmt":"2023-10-29T18:50:11","slug":"a-experiencia-de-eratostenes","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/matastro.pt\/astro\/a-experiencia-de-eratostenes\/","title":{"rendered":"A experi\u00eancia de Erat\u00f3stenes"},"content":{"rendered":"\n<p>A obra&nbsp;em que Erat\u00f3stenes descreve a sua experi\u00eancia, o Geographik\u00e1, foi perdida (s\u00f3 se conhecem fragmentos dos tr\u00eas volumes que a constitu\u00edam). A fonte que se lhe refere \u00e9 Cleomedes que viveu cerca de 200 anos depois. Assim, algumas quest\u00f5es mant\u00eam-se incertas como o valor da unidade de medida por ele usada (o est\u00e1dio). Confiemos, portanto, nas palavras de Carl Sagan que nos conta de uma forma admir\u00e1vel como Erat\u00f3stenes realizou a sua medi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA descoberta de que a Terra \u00e9 um mundo pequeno, assim como tantas outras descobertas humanas importantes, foi feita no antigo Pr\u00f3ximo Oriente, num tempo a que alguns homens chamam o s\u00e9culo III a.C., na grande metr\u00f3pole da \u00e9poca, a cidade eg\u00edpcia de Alexandria. A\u00ed viveu um homem chamado Erat\u00f3stenes. Um contempor\u00e2neo levado pela inveja, chamou-lhe Beta, a segunda letra do alfabeto grego, porque, dizia ele, Erat\u00f3stenes era segundo em tudo, mas para n\u00f3s evidentemente que Erat\u00f3stenes era Alfa em quase tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Astr\u00f3nomo, historiador, ge\u00f3grafo, fil\u00f3sofo, poeta, cr\u00edtico teatral e matem\u00e1tico, os t\u00edtulos dos livros que escreveu v\u00e3o de Astronomia a Sobre a Liberta\u00e7\u00e3o da Dor. Era tamb\u00e9m o diretor da grande Biblioteca de Alexandria, onde, um dia, leu num livro de papiro que no posto fronteiri\u00e7o sul de Siena, perto da primeira catarata do Nilo, ao meio-dia de 21 de junho, varas verticais n\u00e3o faziam sombra. No solst\u00edcio de ver\u00e3o, no dia mais longo do ano, \u00e0 medida que se aproximava o meio-dia, as sombras das colunas do templo ficavam mais pequenas. Ao meio-dia desapareciam. Nessa altura podia ver-se o reflexo do Sol na \u00e1gua no fundo de um po\u00e7o. O Sol estava ent\u00e3o a pino. Era o tipo de observa\u00e7\u00e3o que qualquer outra pessoa ignoraria. Varas, sombras, reflexos em po\u00e7os, a posi\u00e7\u00e3o do Sol &#8211; que import\u00e2ncia poderiam ter assuntos do quotidiano assim t\u00e3o simples?<br>Mas Erat\u00f3stenes era um cientista e as suas reflex\u00f5es sobre estes lugares-comuns mudaram o mundo; de certa forma, fizeram o mundo. Erat\u00f3stenes teve a presen\u00e7a de esp\u00edrito para fazer uma experi\u00eancia: observar se em Alexandria, ao meio-dia de 21 de junho, varas verticais davam sombra. E descobriu que sim.<br>Erat\u00f3stenes perguntou a si pr\u00f3prio como era poss\u00edvel que, no mesmo momento, em Siena uma vara n\u00e3o desse sombra e em Alexandria, mais para norte, uma vara desse uma sombra bem vis\u00edvel. Imaginem um mapa do antigo Egito com duas varas verticais do mesmo tamanho, uma espetada em Alexandria, a outra em Siena. Suponham que, a dado momento, nenhuma delas d\u00e1 sombra. \u00c9 perfeitamente compreens\u00edvel &#8211; desde que a Terra seja plana. O Sol estaria ent\u00e3o na vertical. Se as duas varas dessem sombras de tamanho igual, isso tamb\u00e9m faria sentido numa Terra plana: os raios do Sol teriam a mesma inclina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s varas. Mas como era poss\u00edvel que no mesmo instante n\u00e3o houvesse sombra em Siena e em Alexandria ela fosse bem vis\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p>Na sua opini\u00e3o, a \u00fanica resposta poss\u00edvel era a superf\u00edcie da Terra ser curva. E n\u00e3o s\u00f3: quanto maior fosse a curvatura maior seria a diferen\u00e7a de comprimentos das sombras. O Sol est\u00e1 t\u00e3o longe que os seus raios s\u00e3o praticamente paralelos ao atingir a Terra. Varas colocadas em diferentes \u00e2ngulos em rela\u00e7\u00e3o aos raios solares d\u00e3o sombras de diferentes comprimentos. De acordo com a diferen\u00e7a observada no comprimento das sombras, a dist\u00e2ncia entre Alexandria e Siena teria de ser cerca de 7\u00b0 ao longo da superf\u00edcie da Terra; ou seja, se imaginarmos as varas a estenderem-se at\u00e9 ao centro da Terra, elas intercetar-se-iam num \u00e2ngulo de 7\u00b0. 7\u00ba s\u00e3o cerca de um quinquag\u00e9simo de 360\u00b0, a circunfer\u00eancia total da Terra. Erat\u00f3stenes sabia que a dist\u00e2ncia entre Alexandria e Siena era aproximadamente 800 km, porque contratou um homem para a percorrer a p\u00e9! 800 km vezes 50 s\u00e3o 40000 km: essa devia ser, portanto, a circunfer\u00eancia da Terra .<br>Era a resposta. Os \u00fanicos instrumentos de que Erat\u00f3stenes dispunha eram varas, olhos, p\u00e9s e intelig\u00eancia, al\u00e9m do gosto pela experi\u00eancia. Com eles calculou a circunfer\u00eancia da Terra, com uma pequen\u00edssima percentagem de erro, um c\u00e1lculo not\u00e1vel para 2200 anos atr\u00e1s. Foi a primeira pessoa a medir com precis\u00e3o o tamanho dum planeta.\u201c<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Cosmos, Carl Sagan<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"397\" height=\"313\" src=\"http:\/\/matastro.pt\/astro\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/experiencia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-201 size-full\" srcset=\"http:\/\/matastro.pt\/astro\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/experiencia.jpg 397w, http:\/\/matastro.pt\/astro\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/experiencia-300x237.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>Analisando com mais detalhe os c\u00e1lculos e conceitos matem\u00e1ticos envolvidos na experi\u00eancia, podemos esquematiz\u00e1-la de acordo com a figura ao lado.<br>No instante da experi\u00eancia, o raio da Terra que passava por Siena, [CS], tem a dire\u00e7\u00e3o dos raios luminosos do Sol ( muito aproximadamente paralelos dada a grande dist\u00e2ncia entre a Terra e o Sol ). Da\u00ed, para achar o comprimento da circunfer\u00eancia do meridiano terrestre de Siena, tudo o que restava fazer era:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>utilizar outra cidade no meridiano de Siena (na experi\u00eancia de Erat\u00f3stenes &#8211; Alexandria );<\/li>\n\n\n\n<li>medir o \u00e2ngulo&nbsp;a&nbsp;da sombra projetada por uma vara em Alexandria (do paralelismo dos raios solares sabe-se que&nbsp;a=b);<\/li>\n\n\n\n<li>medir a dist\u00e2ncia entre Siena e Alexandria.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>Erat\u00f3stenes encontrou o valor de 1\/50 do \u00e2ngulo giro para\u00a0a\u00a0(7\u00ba 12\u2019), assim o arco de meridiano compreendido entre Siena e Alexandria (a dist\u00e2ncia medida sobre a superf\u00edcie da Terra entre as duas cidades) ter\u00e1 de ser tamb\u00e9m 1\/50 do per\u00edmetro total do meridiano. Como conhecia essa dist\u00e2ncia (5000 est\u00e1dios), encontrou para a circunfer\u00eancia terrestre 50X5000=250000 est\u00e1dios, cerca de 40 000 km.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:29% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"270\" src=\"http:\/\/matastro.pt\/astro\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/ealexsiena.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-202 size-full\"\/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>O c\u00e1lculo de Erat\u00f3stenes, extraordinariamente preciso atendendo \u00e0 \u00e9poca e condi\u00e7\u00f5es como foi realizado, foi afetado, contudo, por algumas imprecis\u00f5es. A dist\u00e2ncia entre Alexandria e Siena \u00e9 de 4 628 est\u00e1dios e n\u00e3o 5 000 est\u00e1dios.&nbsp;Se olharmos qualquer mapa moderno (Siena \u00e9 a atual Assu\u00e3o), veremos que essas duas cidades n\u00e3o est\u00e3o num mesmo meridiano; h\u00e1 uma diferen\u00e7a de cerca de 3 graus de longitude.<\/p>\n\n\n\n<p>Determina\u00e7\u00f5es posteriores do per\u00edmetro da Terra<br>No c\u00e1lculo do per\u00edmetro da Terra n\u00e3o houve melhorias de precis\u00e3o durante centenas de anos. Em 1671, Jean Picard (astr\u00f3nomo franc\u00eas) estabeleceu a medida do comprimento de um grau de meridiano em 111 km, o que d\u00e1 um valor de 111 X 360 = 39 960 km para o per\u00edmetro da Terra.<br>Em 1686, Newton mostrou que a Terra n\u00e3o era exatamente esf\u00e9rica pois tinha um achatamento polar. A partir desse momento a comunidade cient\u00edfica passou a interessar-se muito pela obten\u00e7\u00e3o de medidas da superf\u00edcie terrestre em diversas regi\u00f5es. Em Fran\u00e7a v\u00e1rias foram as comiss\u00f5es formadas com esse intuito. Das mais importantes destacam-se as que mediram o meridiano no Peru (entre 1735 e 1745) e na Lap\u00f4nia: ambas confirmaram Newton. Uma consequ\u00eancia importante foi a introdu\u00e7\u00e3o do metro em 1791, definido como 1\/10 000 000 do quadrante do meridiano de Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a forma da Terra n\u00e3o \u00e9 perfeitamente esf\u00e9rica (diversas irregularidades incluindo o achatamento polar) passou-se a referir as suas dimens\u00f5es relativamente a um elipsoide, denominado Elipsoide de Refer\u00eancia, que se aproxima tanto quanto poss\u00edvel da superf\u00edcie da Terra.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:32% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"234\" height=\"228\" src=\"http:\/\/matastro.pt\/astro\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/elipsoide.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-203 size-full\"\/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX um novo n\u00edvel de precis\u00e3o foi atingido porque pela primeira vez equipas de cientistas efetuaram medidas m\u00faltiplas de grandes arcos da superf\u00edcie terrestre.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde essa altura e com o aux\u00edlio de sat\u00e9lites (1.\u00ba sat\u00e9lite geod\u00e9sico \u2013 Echo 1, 1960) novas medidas, cada vez mais rigorosas e que varrem toda a superf\u00edcie terrestre t\u00eam sido estabelecidas.<br>Hoje em dia, com o aumento de precis\u00e3o das medi\u00e7\u00f5es, procura-se estabelecer a verdadeira superf\u00edcie da Terra. Estes novos dados levaram a estabelecer uma nova superf\u00edcie de refer\u00eancia &#8211; o geoide. Trata-se de um modelo que tem em conta a influ\u00eancia da gravidade terrestre e lunar nas diferentes regi\u00f5es. \u00c9 mais irregular do que o elipsoide de revolu\u00e7\u00e3o, usado anteriormente para aproximar a forma do planeta, mas consideravelmente mais suave do que a pr\u00f3pria superf\u00edcie f\u00edsica terrestre. Esta nova vis\u00e3o da superf\u00edcie terrestre afasta-nos da vis\u00e3o esf\u00e9rica tradicional e leva-nos para uma imagem de uma \u201cTerra Batata\u201d que mostra como varia consideravelmente a gravidade em v\u00e1rios pontos do planeta.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text has-media-on-the-right is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:auto 38%\"><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>Verifica-se que n\u00e3o h\u00e1 muitas \u00e1reas da superf\u00edcie terrestre que sejam quase coincidentes com estas superf\u00edcies de refer\u00eancia. Verifica-se, contudo, que essa quase perfeita coincid\u00eancia se d\u00e1 ao longo de um arco de meridiano com origem no equador e que se prolonga ao longo da bacia do rio Nilo at\u00e9 uma latitude de 55\u00ba j\u00e1 no territ\u00f3rio da R\u00fassia. Feliz coincid\u00eancia, pois a zona da experi\u00eancia de Erat\u00f3stenes est\u00e1 precisamente aqui inclu\u00edda!<\/p>\n<\/div><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"185\" src=\"http:\/\/matastro.pt\/astro\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/300px-Gravity_anomalies_on_Earth.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-204 size-full\"\/><\/figure><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A obra&nbsp;em que Erat\u00f3stenes descreve a sua experi\u00eancia, o Geographik\u00e1, foi perdida (s\u00f3 se conhecem fragmentos dos tr\u00eas volumes que a constitu\u00edam). A fonte que se lhe refere \u00e9 Cleomedes que viveu cerca de 200 anos depois. Assim, algumas quest\u00f5es mant\u00eam-se incertas como o valor da unidade de medida por ele usada (o est\u00e1dio). 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